ENTREVISTA – Dom Lucena afirma que “Festa da Luz” é incoerente com os ensinamentos da Igreja

09 janeiro
Bispo Diocesano de Guarabira, Dom Francisco Dantas de Lucena (Imagem: Internet)
Guarabira (PB) – O Bispo Diocesano de Guarabira, Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, concedeu entrevista exclusiva para Fato a Fato. Na conversa com a editoria do site, o eclesiástico, formado em filosofia e teologia pelo Seminário Arquidiocesano de São José-RJ, falou sobre temas variados. O religioso declara que a “Festa da Luz”, por exemplo, é incoerente com os ensinamentos da Igreja Católica.
“A Igreja Católica local não tem nenhum envolvimento com a “Festa da Luz” nem apoio da Diocese. É uma falta de respeito utilizar o nome “Festa da Luz”, contratar bandas com preços vultosos pagas com recursos públicos. Estes, sim, devem ser empregados para melhorar a vida dos pobres e executar obras que sirvam para a população guarabirense. As bandas vêm, recebem seus montantes, debocham da cidade e vão embora”, diz Dom Lucena.
Na entrevista, o maior líder religioso do brejo paraibano também fala das perspectivas para 2013, historia sobre o “tempo de Deus e o tempo dos homens”, opina acerca da desvalorização da vida, do crescimento da violência e da falta de fé, além de emitir opinião para o mandato do novo prefeito de Guarabira.
Breve biografia -  Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena. Profissão: Eclesiástico. Cursos: Filosofia e Teologia (1985-1990) no Seminário Arquidiocesano de São José-RJ. Especialização em Linguística e Ensino da Língua Materna pela UFRN. Outros Cursos realizados: Licenciatura Plena em Letras pela UFRN; Direito Canônico no Instituto Superior de Direito Canônico no RJ; Atualização para formadores de Seminários no Athenaeum Pontificium Regina Apostolorum em Roma-Itália. Cargos e funções ocupadas: Aministrador Paroquial em Jardim do Seridó, RN (1991); Administrador Paroquial de Jardim de Piranhas, RN (1992); Reitor do Seminário Diocesano Santo Cura d’Ars (1992-1998; 2003-2007); Ecônomo da Diocese de Caicó (1992-1997); Presidente do Departamento Diocesano de Ação Social (1995-1997); Moderador da Cúria (2003-2005); Pároco de São José do Seridó, RN (2003-2006); Administrador Paroquial em Jardim de Piranhas, RN (2005-2006); Administrador Diocesano Sede Vacante de Caicó (2005-2006); Coordenador Diocesano da Comissão Diocesana de Ministérios e Vocações; Articulador da Comissão Regional NE2 para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada; Ao ser nomeado Bispo era professor de Direito Canônico na Faculdade de Teologia Cardeal Eugênio Sales; Membro do Colégios dos Consultores; Membro do Conselho Presbiteral; Assistente Espiritual das Religiosas de Caicó; Pároco da Paróquia de São Francisco de Assis e Juiz Auditor da Câmara Eclesiástica da Diocese de Caicó.Filiação: Abemor Abdias de Lucena e Maria Inês Dantas de Lucena. Nascido em Jardim do Seridó-RN, aos 19 de outubro de 1963. Ordenado Presbítero aos 21 de julho de 1991, em Caicó-RN. Nomeação Episcopal: 28 de maio de 2008. Ordenação Episcopal: 17 de agosto de 2008, em Caicó-RN. Está no cargo desde: 31 de agosto de 2008, em Guarabira-PB. Atividades como Bispo: Moderador do Tribunal Regional e de Apelação de Olinda e Recife; Bispo Referencial para Campanhas do Regional NE2; Secretário da CNBB-Regional NE2; Bispo Referencial de Cáritas  Regional NE2 e Bispo Referencial da Pastoral da Criança na Província Eclesiástica da Paraíba; 3º Bispo Diocesano de Guarabira, PB.
A seguir, trechos da entrevista com Dom Lucena:
FF -  Qual a expectativa dos que fazem a Igreja Católica de Guarabira em relação a 2013. Há mesmo o advento de um tempo novo e como o senhor projetaria essas perspectivas?
DOM LUCENA - A expectativa é de muita esperança, como o salmista: “O homem de fé aguarda pelo Senhor mais que a sentinela pela aurora” (Sl 130,6). Um grande ano de união em torno da Palavra de Deus, que é o seu Filho, o Verbo eterno, que se manifestou a nós. Atenção às urgências e às atividades do nosso 2º Plano Diocesano de Pastoral, uma redescoberta da fé, o ano da juventude, da missão, uma catequese de estilo catecumenal, aprofundamento do Concílio Vaticano II, estudo do Catecismo da Igreja Católica, estudo do Youcat, preocupação com a vida marcada pelo sofrimento, romarias, vigílias, encontros. É um tempo novo cheio de novidade a cada dia. Reacendeu a vivência no amor operoso que nos impele a testemunhar Jesus Cristo edificando sua Igreja, discípula missionária.
FF -  Nos fale do tempo de Deus e do tempo dos homens. Porque se prega haver diferença quilométrica em ambos os momentos. O homem não é imagem e semelhança de Deus?
DOM LUCENA - O tempo de Deus é o momento certo e oportuno. “Um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos como, um dia” (2Pd 3,8). Deus age num momento melhor que o nosso. O tempo dos homens é medido em horas e dias. É limitado. Tem uma diferença grande. Muitas das nossas pressas nos afastam do tempo de Deus e nos levam à morte. Somos convidados a participar do tempo de Deus. A nossa semelhança com Deus existe somente na alma, pois Deus não tem corpo, mas é puro espírito. Deus é liberdade total e infinita. O homem também é livre, tem capacidade de escolher entre o bem e o mal. Deus é inteligência por essência. O homem tem capacidade de entender. Deus é amor infinito. O homem tem capacidade de amar. O homem é capaz de conhecer e de amar, na liberdade, o próprio Criador.
FF - Como o Clero guarabirense se posta diante das agruras do cotidiano. Fale-nos da desvalorização da vida, da violência e da falta de fé?
DOM LUCENA - Posta-se com inquietude, busca ações e tenta os caminhos que devem ajudar as pessoas no dia a dia. Pastorais, Movimentos e serviços criados, reestruturados e motivados pelo Clero, como os grupos de evangelização, a Catequese, Pastoral da Criança, Pastoral do Idoso, AMECC, Talita, creche, escola. São ações que ajudam a transformar as estruturas de pecado e as agruras do cotidiano: a desigualdade social, falta de trabalho, insegurança, as injustiças e tantas outras manifestações contrárias à dignidade da pessoa e à convivência fraterna. A vida é desvalorizada porque o ser humano é hoje tratado como meio e não como fim. A violência é fruto do egoísmo e de inúmeras formas de destruição da vida. E quando falta fé em Deus, o homem perde a sua dignidade. Se nos falta a fé, nos falta o entusiasmo e facilmente deixamo-nos envolver pelas malhas do cansaço e do desânimo. A fé é uma adesão pessoal a Deus.
FF - Quais as atividades da Diocese de Guarabira nas áreas administrativas e espiritual?
DOM LUCENA - São muitas as atividades nos trinta e dois municípios que compõem a Diocese. Na área administrativa: capacitação dos órgãos e pessoas na utilização do software contábil diocesano, conclusão da organização contábil de todas as capelas maiores e Igrejas, a criação do Secretariado Diocesano de Pastoral, inauguração da Fundação Mons. Emíliano de Cristo, criação do site diocesano, investimento na Rádio Integração do Brejo e reformas de edifícios diocesanos. Na área espiritual: retiros sobre o tema da Fé, romarias, mutirões de confissão nas Regiões Pastorais, semana missionária, semana da juventude, 3ª Jornada da Juventude, Encontro de CEBs e Famílias, Círculos Bíblicos, Experiências de Leitura Orante da Bíblia, Celebração de Encerramento do Ano da Fé, cursos, estudos e simpósios. São atividades não isoladas, mas previstas 2º Plano Diocesano de Pastoral (2012-2015). E tudo a partir de Cristo para a missão suscitando Vida em Comunidade.
FF -  Qual o envolvimento da Igreja Católica local com a Festa da Luz. O evento considerado profano tem o apoio da Diocese e como será a programação religiosa?
DOM LUCENA - A “Festa da Luz” é incoerente com os ensinamentos da Igreja. A Igreja Católica local não tem nenhum envolvimento com a “Festa da Luz” nem apoio da Diocese. É uma falta de respeito utilizar o nome “Festa da Luz”, contratar bandas com preços vultosos pagas com recursos públicos. Estes, sim, devem ser empregados para melhorar a vida dos pobres e executar obras que sirvam para a população guarabirense. As bandas vêm, recebem seus montantes, debocham da cidade e vão embora. Guarabira merece ser bem cuidada. Salve, Salve, Senhora da Luz! A Festa de Nossa Senhora da Luz tem grande valor para o povo do Brejo paraibano. É força da tradição, da religiosidade popular, do espírito devocional que nascem da fé. A Igreja sabe desta força religiosa e se esforça para que a festa seja uma oportunidade de um encontro do povo com Deus, através do anúncio da salvação, das práticas religiosas, nas novenas, nas procissões e na celebração dos sacramentos. Louvo a atitude do Pe. Adauto em resgatar a quermesse: comidas típicas, apresentações regionais, músicas ao vivo, na Praça da Catedral, sem bebidas alcoólicas, depois da novena. A Festa de Nossa da Luz será aberta no dia 23 de janeiro, às ...
FF - Que conceito o Clero tem a respeito do Executivo, do Legislativo e do Judiciário guarabirense. Eles rendem o bastante para sustentar o bem estar da população. Onde erram e em que sentido acertam?
DOM LUCENA - O Clero tem profundo respeito pelos poderes legitimamente constituídos. Não é dever do Clero julgar qualquer esfera da sociedade. Todas as autoridades devem cumprir com seu papel, desempenhar suas funções com todas as suas responsabilidades, deveres e direitos. Com relação ao rendimento para a sustentabilidade da população é a própria população que cobra, aprova ou reprova. Erram, se não cumprem com suas obrigações conforme a lei e o bem comum, e acertam, se prezam os valores caros ao seu povo, valores que são importantíssimo fator de coesão social, inspiração de futuro a construir a concórdia entre os cidadãos. Os detentores do poder devem amar a justiça, ter sentimentos retos e pautar pela simplicidade no coração.
FF - Católicos e Evangélicos viviam em linhas de ações e pensamentos difusas. E agora, como se pode conceituar esse relacionamento. Fale-nos das igrejas evangélicas de Guarabira.
DOM LUCENA - Jesus diz: “Que todos sejam um“ (Jo 17,21). Católicos e Evangélicos não podem ter ações e pensamentos difusos. As convicções são claras. A doutrina é diferente. Ninguém vai abdicar de suas convicções. Mas, sim, aprender a respeitar. Não é preciso mentir, discutir ou agredir em nome das Igrejas. Há pontos que nos unem e ações que podem ser realizadas juntos. A grande vergonha dos cristãos é a divisão. A multiplicidade das igrejas evangélicas e a proliferação das seitas não são obra de Deus, mas dos homens. Os culpados das divisões são os homens: orgulhosos, medíocres, sem fé e defensores de seus próprios interesses. Como existe um só Deus assim também existe uma só verdade, uma só religião verdadeira, na qual devemos servir e adorar a Deus. É errado afirmar que para Deus todas as religiões são boas e que Deus só quer o coração do homem. Sim, Deus quer o coração do homem, mas na verdade e não no erro. Muitas Igrejas erradamente vivem fazendo milagres. Sabemos que Deus opera milagres, mas não é propriedade das igrejas. O milagre é decisão de Deus. Nas igrejas evangélicas de Guarabira há muitas pessoas de Deus, de valor e de respeito. E há algumas que faltam com a verdade, a honestidade, o conhecimento, a orientação correta aos fiéis e, quando contrariados em seus próprios interesses, fundam uma outra igreja. Tenho certeza absoluta de que um dia chegaremos a ter “um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, acima de todos, no meio de todos e em todos” (Ef 4,5s).
FF - Como se vê o crescimento da violência na Paraíba e, especialmente, em Guarabira e região. Como a Igreja Católica se envolve para minimizar essa situação?
DOM LUCENA - Vê-se com muito constrangimento e sofrimento, com um sentimento de repúdio muito forte, porque não se pode aceitar, de forma nenhuma, a violência. O crescimento da violência tem se manifestado em roubos, assaltos e o que é mais grave, em assassinatos que a cada dia destroem mais vidas humanas e enchem de dor as famílias e a sociedade inteira. A violência se reveste de várias formas e tem diversos agentes. É imperativo tomar consciência da situação precária que afeta a dignidade das pessoas: famílias desajustadas, falta de trabalho, escravidão, corrupção, falta de políticas públicas de equidade social, exclusão social, miséria, desemprego, exploração, opressão, prostituição, drogas, sistema carcerário como escola de crime, exploração publicitária. É preciso exigir do poder público que dê uma atenção a toda esta situação. E a Igreja Católica tem buscado formas concretas para amparar e amenizar tantos sofrimentos: pastoral familiar, juventude, pastoral carcerária, conselho de direitos humanos e assistência às crianças e adolescentes. Tem denunciado situações de pecado, estruturas de morte e injustiças. E por causa desse trabalho, pessoas nossas foram presas no ano de 2012. É lamentável. Todas as classes e instituições precisam estar juntas para conseguir uma eficácia. As pessoas precisam de um encontro pessoal com Cristo e sintir que em Cristo encontram o sentido pleno de sua existência.
FF -  O povo católico de Guarabira e da região vive a justiça social pregada pela Igreja Católica? Senão, porque o Clero guarabirense não faz essas cobranças aos poderes constituídos?
DOM LUCENA - Inicialmente, seria imprudente dizer que todo o povo não vive a justiça social pregada pela Igreja. A grande maioria não. Eis os princípios: o ser humano é o centro da criação, feito imagem e semelhança de Deus, responsável e livre e igual a todos. Ora, o capitalismo e comunismo consideram o homem como simples instrumento de produção. O comunismo e o capitalismo liberal não servem. A justiça social da Igreja leva em conta a visão global do homem e da humanidade. Nenhuma diferença essencial há entre ricos e pobres, senhores e servos. A verdadeira justiça social objetiva a promoção de libertação total da pessoa humana, em sua dimensão terrena e transcendente. Ela  exige coerência, criatividade, audácia e entrega total. O operário deveria participar dos lucros da empresa em que trabalha. O clero guarabirense não faz uma cobrança direta, mas indiretamente sim. E o clero precisa também ter uma apurada consciência de justiça social e vivê-la. A cobrança não é só do clero, mas de todo o povo católico ou não. O povo tem cobrado justiça social através do voto, ficha limpa e movimentos sociais. Diz um pensamento: “Onde faltam cidadãos honestos, outros vêm ocupar-lhes o lugar para fazer da atividade política a arena de suas ambições, uma corrida aos ganhos próprios e de sua classe”. O correto é não precisar cobrar dos poderes constituídos justiça social. O Evangelho aponta a verdadeira dimensão do poder, a partir de Cristo, que garantiu: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28).
FF - O que a Igreja Católica espera do futuro gestor guarabirense e dos legisladores municipais?
DOM LUCENA - Creio que nas escolhas de um povo a providência divina age. Assim, espero do gestor uma efetiva administração do município, definição de prioridades, planejamento, parcerias com organizações e lideranças representativas dos setores da sociedade e o cumprimento das leis. Dos legisladores que legislem com honestidade, disciplinem e regulamentem questões de interesse social, fiscalizem, indiquem soluções para os problemas de interesse público, elaborem e votem leis que atendam às urgências e  exerçam liderança junto às comunidades. Que a vida e o discurso sejam referendados pela honestidade, competência, transparência e serviço ao bem comum. Vivam o compromisso cristão a serviço dos outros. Que Deus os proteja e os ilumine.
Do Fato a Fato

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.