ENTREVISTA – Dom Lucena afirma que “Festa da Luz” é incoerente com os ensinamentos da Igreja
Guarabira (PB) – O Bispo
Diocesano de Guarabira, Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena,
concedeu entrevista exclusiva para Fato a Fato. Na conversa com a
editoria do site, o eclesiástico, formado em filosofia e teologia pelo
Seminário Arquidiocesano de São José-RJ, falou sobre temas variados. O
religioso declara que a “Festa da Luz”, por exemplo, é incoerente com os
ensinamentos da Igreja Católica.
“A Igreja Católica local não tem nenhum
envolvimento com a “Festa da Luz” nem apoio da Diocese. É uma falta de
respeito utilizar o nome “Festa da Luz”, contratar bandas com preços
vultosos pagas com recursos públicos. Estes, sim, devem ser empregados
para melhorar a vida dos pobres e executar obras que sirvam para a
população guarabirense. As bandas vêm, recebem seus montantes, debocham
da cidade e vão embora”, diz Dom Lucena.
Na entrevista, o maior líder religioso do
brejo paraibano também fala das perspectivas para 2013, historia sobre o
“tempo de Deus e o tempo dos homens”, opina acerca da desvalorização da
vida, do crescimento da violência e da falta de fé, além de emitir
opinião para o mandato do novo prefeito de Guarabira.
Breve biografia - Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena. Profissão: Eclesiástico. Cursos: Filosofia e Teologia (1985-1990) no Seminário Arquidiocesano de São José-RJ. Especialização em Linguística e Ensino da Língua Materna pela UFRN. Outros Cursos
realizados: Licenciatura Plena em Letras pela UFRN; Direito Canônico no
Instituto Superior de Direito Canônico no RJ; Atualização para
formadores de Seminários no Athenaeum Pontificium Regina Apostolorum em
Roma-Itália. Cargos e funções ocupadas: Aministrador
Paroquial em Jardim do Seridó, RN (1991); Administrador Paroquial de
Jardim de Piranhas, RN (1992); Reitor do Seminário Diocesano Santo Cura
d’Ars (1992-1998; 2003-2007); Ecônomo da Diocese de Caicó (1992-1997);
Presidente do Departamento Diocesano de Ação Social (1995-1997);
Moderador da Cúria (2003-2005); Pároco de São José do Seridó, RN
(2003-2006); Administrador Paroquial em Jardim de Piranhas, RN
(2005-2006); Administrador Diocesano Sede Vacante de Caicó (2005-2006);
Coordenador Diocesano da Comissão Diocesana de Ministérios e Vocações;
Articulador da Comissão Regional NE2 para os Ministérios Ordenados e a
Vida Consagrada; Ao ser nomeado Bispo era professor de Direito Canônico
na Faculdade de Teologia Cardeal Eugênio Sales; Membro do Colégios dos
Consultores; Membro do Conselho Presbiteral; Assistente Espiritual das
Religiosas de Caicó; Pároco da Paróquia de São Francisco de Assis e Juiz
Auditor da Câmara Eclesiástica da Diocese de Caicó.Filiação: Abemor Abdias de Lucena e Maria Inês Dantas de Lucena. Nascido em Jardim do Seridó-RN, aos 19 de outubro de 1963. Ordenado Presbítero aos 21 de julho de 1991, em Caicó-RN. Nomeação Episcopal: 28 de maio de 2008. Ordenação Episcopal: 17 de agosto de 2008, em Caicó-RN. Está no cargo desde: 31 de agosto de 2008, em Guarabira-PB. Atividades como Bispo:
Moderador do Tribunal Regional e de Apelação de Olinda e Recife; Bispo
Referencial para Campanhas do Regional NE2; Secretário da CNBB-Regional
NE2; Bispo Referencial de Cáritas Regional NE2 e Bispo Referencial da
Pastoral da Criança na Província Eclesiástica da Paraíba; 3º Bispo
Diocesano de Guarabira, PB.
A seguir, trechos da entrevista com Dom Lucena:
FF - Qual a expectativa dos que
fazem a Igreja Católica de Guarabira em relação a 2013. Há mesmo o
advento de um tempo novo e como o senhor projetaria essas perspectivas?
DOM LUCENA - A
expectativa é de muita esperança, como o salmista: “O homem de fé
aguarda pelo Senhor mais que a sentinela pela aurora” (Sl 130,6). Um
grande ano de união em torno da Palavra de Deus, que é o seu Filho, o
Verbo eterno, que se manifestou a nós. Atenção às urgências e às
atividades do nosso 2º Plano Diocesano de Pastoral, uma redescoberta da
fé, o ano da juventude, da missão, uma catequese de estilo catecumenal,
aprofundamento do Concílio Vaticano II, estudo do Catecismo da Igreja
Católica, estudo do Youcat, preocupação com a vida marcada pelo
sofrimento, romarias, vigílias, encontros. É um tempo novo cheio de
novidade a cada dia. Reacendeu a vivência no amor operoso que nos impele
a testemunhar Jesus Cristo edificando sua Igreja, discípula
missionária.
FF - Nos fale do tempo de Deus e
do tempo dos homens. Porque se prega haver diferença quilométrica em
ambos os momentos. O homem não é imagem e semelhança de Deus?
DOM LUCENA - O tempo de
Deus é o momento certo e oportuno. “Um dia diante do Senhor é como mil
anos, e mil anos como, um dia” (2Pd 3,8). Deus age num momento melhor
que o nosso. O tempo dos homens é medido em horas e dias. É limitado.
Tem uma diferença grande. Muitas das nossas pressas nos afastam do tempo
de Deus e nos levam à morte. Somos convidados a participar do tempo de
Deus. A nossa semelhança com Deus existe somente na alma, pois Deus não
tem corpo, mas é puro espírito. Deus é liberdade total e infinita. O
homem também é livre, tem capacidade de escolher entre o bem e o mal.
Deus é inteligência por essência. O homem tem capacidade de entender.
Deus é amor infinito. O homem tem capacidade de amar. O homem é capaz de
conhecer e de amar, na liberdade, o próprio Criador.
FF - Como o Clero guarabirense se
posta diante das agruras do cotidiano. Fale-nos da desvalorização da
vida, da violência e da falta de fé?
DOM LUCENA - Posta-se com
inquietude, busca ações e tenta os caminhos que devem ajudar as pessoas
no dia a dia. Pastorais, Movimentos e serviços criados, reestruturados e
motivados pelo Clero, como os grupos de evangelização, a Catequese,
Pastoral da Criança, Pastoral do Idoso, AMECC, Talita, creche, escola.
São ações que ajudam a transformar as estruturas de pecado e as agruras
do cotidiano: a desigualdade social, falta de trabalho, insegurança, as
injustiças e tantas outras manifestações contrárias à dignidade da
pessoa e à convivência fraterna. A vida é desvalorizada porque o ser
humano é hoje tratado como meio e não como fim. A violência é fruto do
egoísmo e de inúmeras formas de destruição da vida. E quando falta fé em Deus, o homem perde a sua dignidade. Se
nos falta a fé, nos falta o entusiasmo e facilmente deixamo-nos
envolver pelas malhas do cansaço e do desânimo. A fé é uma adesão
pessoal a Deus.
FF - Quais as atividades da Diocese de Guarabira nas áreas administrativas e espiritual?
DOM LUCENA - São
muitas as atividades nos trinta e dois municípios que compõem a
Diocese. Na área administrativa: capacitação dos órgãos e pessoas na
utilização do software contábil diocesano, conclusão da organização
contábil de todas as capelas maiores e Igrejas, a criação do
Secretariado Diocesano de Pastoral, inauguração da Fundação Mons.
Emíliano de Cristo, criação do site diocesano, investimento na Rádio
Integração do Brejo e reformas de edifícios diocesanos. Na área
espiritual: retiros sobre o tema da Fé, romarias, mutirões de confissão
nas Regiões Pastorais, semana missionária, semana da juventude, 3ª
Jornada da Juventude, Encontro de CEBs e Famílias, Círculos Bíblicos,
Experiências de Leitura Orante da Bíblia, Celebração de Encerramento do
Ano da Fé, cursos, estudos e simpósios. São atividades não isoladas, mas
previstas 2º Plano Diocesano de Pastoral (2012-2015). E tudo a partir
de Cristo para a missão suscitando Vida em Comunidade.
FF - Qual o envolvimento da
Igreja Católica local com a Festa da Luz. O evento considerado profano
tem o apoio da Diocese e como será a programação religiosa?
DOM LUCENA - A “Festa da
Luz” é incoerente com os ensinamentos da Igreja. A Igreja Católica local
não tem nenhum envolvimento com a “Festa da Luz” nem apoio da Diocese. É
uma falta de respeito utilizar o nome “Festa da Luz”, contratar bandas
com preços vultosos pagas com recursos públicos. Estes, sim, devem ser
empregados para melhorar a vida dos pobres e executar obras que sirvam
para a população guarabirense. As bandas vêm, recebem seus montantes,
debocham da cidade e vão embora. Guarabira merece ser bem cuidada.
Salve, Salve, Senhora da Luz! A Festa de Nossa Senhora da Luz tem grande
valor para o povo do Brejo paraibano. É força da tradição, da
religiosidade popular, do espírito devocional que nascem da fé. A Igreja
sabe desta força religiosa e se esforça para que a festa seja uma
oportunidade de um encontro do povo com Deus, através do anúncio da
salvação, das práticas religiosas, nas novenas, nas procissões e na
celebração dos sacramentos. Louvo a atitude do Pe. Adauto em resgatar a
quermesse: comidas típicas, apresentações regionais, músicas ao vivo, na
Praça da Catedral, sem bebidas alcoólicas, depois da novena. A Festa de
Nossa da Luz será aberta no dia 23 de janeiro, às ...
FF - Que conceito o Clero tem a
respeito do Executivo, do Legislativo e do Judiciário guarabirense. Eles
rendem o bastante para sustentar o bem estar da população. Onde erram e
em que sentido acertam?
DOM LUCENA - O Clero tem
profundo respeito pelos poderes legitimamente constituídos. Não é dever
do Clero julgar qualquer esfera da sociedade. Todas as autoridades devem
cumprir com seu papel, desempenhar suas funções com todas as suas
responsabilidades, deveres e direitos. Com relação ao rendimento para a
sustentabilidade da população é a própria população que cobra, aprova ou
reprova. Erram, se não cumprem com suas obrigações conforme a lei e o
bem comum, e acertam, se prezam os valores caros ao seu povo, valores
que são importantíssimo fator de coesão social, inspiração de futuro a
construir a concórdia entre os cidadãos. Os detentores do poder devem
amar a justiça, ter sentimentos retos e pautar pela simplicidade no
coração.
FF - Católicos e Evangélicos
viviam em linhas de ações e pensamentos difusas. E agora, como se pode
conceituar esse relacionamento. Fale-nos das igrejas evangélicas de
Guarabira.
DOM LUCENA - Jesus diz:
“Que todos sejam um“ (Jo 17,21). Católicos e Evangélicos não podem ter
ações e pensamentos difusos. As convicções são claras. A doutrina é
diferente. Ninguém vai abdicar de suas convicções. Mas, sim, aprender a
respeitar. Não é preciso mentir, discutir ou agredir em nome das
Igrejas. Há pontos que nos unem e ações que podem ser realizadas juntos.
A grande vergonha dos cristãos é a divisão. A multiplicidade das
igrejas evangélicas e a proliferação das seitas não são obra de Deus,
mas dos homens. Os culpados das divisões são os homens: orgulhosos,
medíocres, sem fé e defensores de seus próprios interesses. Como existe
um só Deus assim também existe uma só verdade, uma só religião
verdadeira, na qual devemos servir e adorar a Deus. É errado afirmar que
para Deus todas as religiões são boas e que Deus só quer o coração do
homem. Sim, Deus quer o coração do homem, mas na verdade e não no erro.
Muitas Igrejas erradamente vivem fazendo milagres. Sabemos que Deus
opera milagres, mas não é propriedade das igrejas. O milagre é decisão
de Deus. Nas igrejas evangélicas de Guarabira há muitas pessoas de Deus,
de valor e de respeito. E há algumas que faltam com a verdade, a
honestidade, o conhecimento, a orientação correta aos fiéis e, quando
contrariados em seus próprios interesses, fundam uma outra igreja. Tenho
certeza absoluta de que um dia chegaremos a ter “um só Senhor, uma só
fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, acima de todos, no meio de
todos e em todos” (Ef 4,5s).
FF - Como se vê o crescimento da
violência na Paraíba e, especialmente, em Guarabira e região. Como a
Igreja Católica se envolve para minimizar essa situação?
DOM LUCENA - Vê-se com
muito constrangimento e sofrimento, com um sentimento de repúdio muito
forte, porque não se pode aceitar, de forma nenhuma, a violência. O
crescimento da violência tem se manifestado em roubos, assaltos e o que é
mais grave, em assassinatos que a cada dia destroem mais vidas humanas e
enchem de dor as famílias e a sociedade inteira. A violência se reveste
de várias formas e tem diversos agentes. É imperativo tomar consciência
da situação precária que afeta a dignidade das pessoas: famílias
desajustadas, falta de trabalho, escravidão, corrupção,
falta de políticas públicas de equidade social, exclusão social,
miséria, desemprego, exploração, opressão, prostituição, drogas, sistema
carcerário como escola de crime, exploração publicitária. É preciso
exigir do poder público que dê uma atenção a toda esta situação. E a
Igreja Católica tem buscado formas concretas para amparar e amenizar
tantos sofrimentos: pastoral familiar, juventude, pastoral carcerária,
conselho de direitos humanos e assistência às crianças e adolescentes.
Tem denunciado situações de pecado, estruturas de morte e injustiças. E
por causa desse trabalho, pessoas nossas foram presas no ano de 2012. É
lamentável. Todas as classes e instituições precisam estar juntas para
conseguir uma eficácia. As pessoas precisam de um encontro pessoal com
Cristo e sintir que em Cristo encontram o sentido pleno de sua
existência.
FF - O povo católico de Guarabira
e da região vive a justiça social pregada pela Igreja Católica? Senão,
porque o Clero guarabirense não faz essas cobranças aos poderes
constituídos?
DOM LUCENA -
Inicialmente, seria imprudente dizer que todo o povo não vive a justiça
social pregada pela Igreja. A grande maioria não. Eis os princípios: o
ser humano é o centro da criação, feito imagem e semelhança de Deus,
responsável e livre e igual a todos. Ora, o capitalismo e comunismo
consideram o homem como simples instrumento de produção. O comunismo e o
capitalismo liberal não servem. A justiça social da Igreja leva em
conta a visão global do homem e da humanidade. Nenhuma diferença
essencial há entre ricos e pobres, senhores e servos. A verdadeira
justiça social objetiva a promoção de libertação total da pessoa humana,
em sua dimensão terrena e transcendente. Ela exige coerência,
criatividade, audácia e entrega total. O operário deveria participar dos
lucros da empresa em que trabalha. O clero guarabirense não faz uma
cobrança direta, mas indiretamente sim. E o clero precisa também ter uma
apurada consciência de justiça social e vivê-la. A cobrança não é só do
clero, mas de todo o povo católico ou não. O povo tem cobrado justiça
social através do voto, ficha limpa e movimentos sociais. Diz um
pensamento: “Onde faltam cidadãos honestos, outros vêm ocupar-lhes o
lugar para fazer da atividade política a arena de suas ambições, uma
corrida aos ganhos próprios e de sua classe”. O correto é não precisar
cobrar dos poderes constituídos justiça social. O Evangelho aponta a
verdadeira dimensão do poder, a partir de Cristo, que garantiu: “Não vim
para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28).
FF - O que a Igreja Católica espera do futuro gestor guarabirense e dos legisladores municipais?
DOM LUCENA - Creio que
nas escolhas de um povo a providência divina age. Assim, espero do
gestor uma efetiva administração do município, definição de prioridades,
planejamento, parcerias com organizações e lideranças representativas
dos setores da sociedade e o cumprimento das leis. Dos legisladores que
legislem com honestidade, disciplinem e regulamentem questões de
interesse social, fiscalizem, indiquem soluções para os problemas de
interesse público, elaborem e votem leis que atendam às urgências e
exerçam liderança junto às comunidades. Que a vida e o discurso sejam
referendados pela honestidade, competência, transparência e serviço ao
bem comum. Vivam o compromisso cristão a serviço dos outros. Que Deus os
proteja e os ilumine.
Do Fato a Fato
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